3. BRASIL 20.2.13

1. O DOSSI DA VERGONHA
2. ERA S TER LIDO VEJA, MAS...

1. O DOSSI DA VERGONHA
O PT, o governo cubano e at um funcionrio do Palcio do Planalto esto envolvidos numa conspirao para espionar e tentar desqualificar Yoani Snchez  a blogueira conhecida por denunciar a ditadura dos irmos Castro , que chega ao Brasil nesta semana.
ROBSON BONIN

     A blogueira Yoani Snchez desembarca no Brasil nesta semana para divulgar o livro De Cuba, com Carinho, uma coletnea de seus textos sobre o triste cotidiano do povo cubano sob a ditadura dos irmos Fidel e Ral Castro. O trabalho rendeu  dissidente uma perseguio implacvel. Ela foi sequestrada, torturada e, durante anos, impedida de deixar o pas.  rotulada de mercenria pelos comunistas da ilha e acusada de trair os princpios revolucionrios. O que Yoani no sabe  que, apesar da distncia que separa o Brasil de Cuba  5000 quilmetros , ela no estar livre dos olhos e muito menos dos tentculos do regime autoritrio. Para os sete dias em que permanecer no Brasil, o governo cubano escalou um grupo de agentes para vigi-la e recrutou outro com a misso de desqualific-la a partir de um pattico dossi. Uma conspirata oficial em territrio estrangeiro contra quem quer que seja  uma monumental afronta  soberania de qualquer nao. Esse caso, porm, envolve uma inquietante parceria. O plano para espionar e constranger Yoani Snchez foi elaborado pelo governo cubano, mas ser executado com o conhecimento e o apoio do PT, de militantes do partido e de pelo menos um funcionrio da Presidncia da Repblica.
     VEJA apurou os detalhes da operao clandestina deflagrada pelo regime cubano para perseguir Yoani Snchez em territrio brasileiro.
     No ltimo dia 6 de fevereiro, um grupo de militantes de esquerda, em sua maioria ligados ao PT  na lista estavam tambm integrantes do PCdoB e da CUT , foi chamado ao prdio da Embaixada de Cuba em Braslia para uma reunio com o embaixador Carlos Zamora Rodrguez. Organizado pelo conselheiro poltico da embaixada, Rafael Hidalgo, o encontro, j no incio, intrigou os convidados pela ausncia dos protocolos oficiais: os participantes foram convocados de ltima hora, por telefone, e orientados a no dizer os nomes, mas apenas as entidades e os partidos que representavam, durante a reunio. Quando todos j estavam acomodados nas velhas cadeiras da embaixada  uma das poucas coisas em perfeito estado no prdio  o quadro de Fidel Castro pendurado na recepo , a figura grisalha de Rodrguez, em um terno azul-turquesa-escuro, apareceu no hall principal, falando ao celular. J com o aparelho desligado, foi direto ao assunto. Os militantes de esquerda estavam ali, segundo ele, para ajudar o regime cubano a colocar nas ruas uma ofensiva de contrainformao para desmascarar Yoani Snchez uma mercenria, financiada pelo governo dos Estados Unidos para trabalhar contra a Revoluo Cubana, contra o povo, contra os trabalhadores.
     As palavras do embaixador foram ouvidas em respeitoso silncio. Rodrguez explicou que a ao precisava ser rpida e s seria bem-sucedida se contasse com o apoio ostensivo das redes sociais ligadas aos partidos e dos blogs comandados pelos petistas e jornalistas amigos do regime. Ainda em silncio, o diplomata passou a distribuir um dossi com as informaes que deveriam subsidiar a campanha difamatria contra Yoani Snchez. Cada um dos presentes recebeu um CD com capa diferente, provavelmente para identificar um eventual vazamento. O documento que incrimina Yoani Snchez, ao qual VEJA tambm teve acesso,  uma produo tpica de ditaduras comunistas e acaba jogando mais luz sobre a misria do regime cubano. Comida, bebida e diverso so transformados em artigos de luxo da vida mercenria da blogueira, que usaria sua luta pelas liberdades individuais em Cuba para ganhar dinheiro e, assim, desfrutar mordomias impensveis para a maioria dos moradores da ilha, como comprar uma lata de cerveja, um cacho de banana ou ir  praia com amigos. Dividido em duas partes, o dossi tem 235 pginas, rene fotos pessoais de Yoani Snchez, montagens e uma lista de seus prmios internacionais  entre eles o Ortega y Gasset, da Espanha, e o Prncipe Claus, da Holanda, comendas concedidas apenas a destacados defensores da liberdade de expresso.
     Apesar do clima de camaradagem entre brasileiros e cubanos, houve protestos. Incomodados com uma das condies do plano  ao difundir as acusaes contra a blogueira na internet, ningum poderia revelar a origem das informaes , alguns militantes preferiram abandonar a reunio ainda no comeo. Os que ficaram ouviram um longo relato do embaixador sobre a verdadeira histria de Yoani. Foram quase trs horas de explanao, ao longo das quais foi servido caf preto e trs tipos de biscoito. Por iniciativa de um dos participantes, chegou-se a discutir uma sada alternativa  conspirao arquitetada pela diplomacia cubana. Os movimentos sociais preparariam um manifesto contra a blogueira para ser divulgado durante a visita. A proposta, no entanto, foi descartada por Rodrguez. Na avaliao dele, as entidades demorariam muito para formar um consenso e, a menos de duas semanas da chegada de Yoani Snchez, o negcio precisaria ser rpido.  melhor cada um fazer a sua parte, orientou o embaixador, segundo relato de um dos participantes do encontro.
     A ao conta com ingredientes ainda mais ousados. Alm de distriburem o dossi e montarem a estratgia para assassinar a reputao de Yoani Snchez, os cubanos se encarregaro de outra investida: seguir os passos da blogueira desde o instante em que ela pisar em territrio brasileiro, 24 horas todos os dias. A revelao foi feita pelo prprio Carlos Zamora Rodrguez. Segundo ele, o governo dos irmos Castro ainda no sabe ao certo o que est por trs da visita de Yoani ao Brasil, mas pretende descobrir. Para isso, entrar em ao o G2, o servio secreto cubano, que vai monitorar cada passo da blogueira e de seus colaboradores durante a viagem. O embaixador no explicou como isso ser feito, j que a presena de espies de Cuba seria inconcebvel, um atentado  soberania do Brasil, por mais simpticas e prximas que sejam as relaes entre os dois pases. Relaes, alis, que ficam mais explcitas quando se descobre a identidade de alguns dos presentes  reunio.
     Um dos mais ativos e entusiasmados participantes do encontro clandestino na embaixada cubana chama-se Ricardo Poppi Martins. Ele passaria despercebido entre os militantes, no fosse sua proximidade com um dos ministros mais poderosos do governo da presidente Dilma Rousseff. Subordinado ao chefe da Secretaria-Geral da Presidncia, Gilberto Carvalho, Poppi, alm de militante do PT,  coordenador-geral de Novas Mdias do ministrio. Ele participou da reunio do comeo ao fim, ouviu os planos de espionagem e conspirao do embaixador cubano e tambm levou embora o CD com o dossi contra a blogueira. Poppi Martins trabalha com o ministro Gilberto Carvalho desde o incio do governo Dilma e recebe cerca de 6800 reais por ms. Estava em pleno horrio de expediente quando foi chamado a participar da conspirao na embaixada cubana. Suas relaes com o regime castrista so bastante intensas. Um dia aps a reunio, ele viajou para Havana com todas as despesas pagas pelo governo brasileiro. Foi participar de um encontro promovido pela ditadura cubana sobre tcnicas de ciberguerra e novas formas de comunicao de rede e batalhas polticas.
     A viagem do representante do governo brasileiro s termina nesta segunda-feira, mas o manifesto produzido no encontro j estava disponvel nos sites cubanos na semana passada.
     Entre as resolues finais aprovadas, constam o apoio s reivindicaes de Cuba contra as restries para acessar servios de computador e internet, junto a autoridades e empresas nos Estados Unidos, e a solidariedade de todos com a Revoluo Bolivariana e o presidente Hugo Chvez, diante das campanhas de mdia e da ao desestabilizadora dos inimigos do processo revolucionrio na Venezuela. Poppi, portanto, foi a Cuba em misso oficial, com as despesas pagas pelo contribuinte, para, segundo a pauta disponibilizada pelos prprios organizadores do evento, apoiar ditaduras e aprender a usar a internet para destruir reputaes de quem no pensa como ele, exatamente como planejam fazer com a blogueira Yoani Snchez.
     O servidor do Palcio do Planalto no foi localizado. A Secretaria-Geral da Presidncia informou que desconhece a sua participao na reunio com o embaixador e confirma que Poppi realmente esteve na representao diplomtica cubana em 6 de fevereiro, mas para trocar informaes sobre a viagem que faria uma semana depois. Em relao  expedio a Havana, a secretaria entendeu ser de interesse da administrao pblica enviar um representante para conhecer as experincias trocadas no seminrio e aportar a experincia brasileira na rea. J o conselheiro poltico da embaixada cubana, Rafael Hidalgo, tambm se apressou em negar o encontro: No, no, no. No aconteceu nenhuma reunio nesse sentido (Yoani). O embaixador Carlos Rodriguez no respondeu s perguntas enviadas pela reportagem. Procurado, o PT preferiu manter silncio sobre o caso. Como nas ditaduras, a transparncia  apenas um detalhe.
     No  a primeira vez que as relaes umbilicais do PT com o regime dos irmos Castro produzem uma situao ilegal ou vergonhosa. Em novembro de 2005, VEJA revelou que dlares do regime cubano, acondicionados em caixas de bebida, haviam circulado por Braslia e Campinas at chegar ao comit eleitoral de Lula em So Paulo. Na ocasio, dois ex-auxiliares do ento ministro Antonio Palocci confirmaram a existncia de uma operao para levar ao comit eleitoral de Lula 3 milhes de dlares vindos de Cuba. Anos mais tarde, em 2007, o governo de Lula, recusando-se a ajudar refugiados, devolveu ao regime dos irmos Castro os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que haviam se desligado da delegao durante os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Os atletas tentavam escapar da ditadura cubana, mas o governo brasileiro no lhes deu a mnima chance. A deciso foi servil, desumana, mas legal  ao contrrio da situao que se passou em Braslia. A Conveno de Viena estabelece que um embaixador pode atuar livremente em um pas estrangeiro desde que no realize atos polticos para defender seus interesses nem interfira em assuntos internos. Diz o embaixador Rubens Barbosa: Um diplomata pode receber quem quer que seja, mas no pode ter atuao poltica, no pode promover reunies pblicas para defender isto ou aquilo, no pode participar de reunies partidrias. Cabe ao governo brasileiro avaliar se esses princpios valem tambm para os representantes de Cuba. 


2. ERA S TER LIDO VEJA, MAS...
...a Valec voltou a aceitar propostas de empresrios impedidos de negociar com o governo. Est tudo na reportagem de 2011.
RODRIGO RANGEL

     Em 2011, a Valec, a estatal que cuida das ferrovias brasileiras, estava com tudo pronto para fechar um daqueles negcios nebulosos que misturam dinheiro pblico, interesses privados e poltica. Famosa por conseguir conciliar essas trs reas sempre conflituosas, a Dismaf Distribuidora de Manufaturados, pequena empresa de Braslia, venceu uma licitao para vender trilhos no valor de 720 milhes de reais. Uma reportagem de VEJA, porm, revelou um detalhe que passara despercebido a todos os escales administrativos do governo. A Dismaf no poderia sequer ter participado da concorrncia e por uma razo elementar: ela estava impedida de assinar qualquer contrato com o poder pblico depois de ter sido listada nas investigaes do escndalo do mensalo como assdua contribuinte da mquina criada pelo PT para arrecadar propina nas empresas estatais. Segundo a Polcia Federal, a Dismaf vencia as licitaes e, depois, repassava parte dos lucros a partidos polticos. Seu cliente preferencial  poca era o PTB, que controlava o caixa dos Correios. O contrato foi devidamente cancelado.
     O quase sucesso da Dismaf era um indcio veemente de que, mesmo aps a descoberta do mensalo, a engrenagem clandestina continuava girando livremente. Os rgos de controle, como o Tribunal de Contas da Unio (TCU) e a Controladoria-Geral da Unio (CGU), confirmaram as irregularidades na licitao. A CGU chegou a determinar a abertura de processo disciplinar contra funcionrios da Valec responsveis pelo favorecimento  empresa. Para evitar que a situao se repetisse, o TCU baixou uma srie de recomendaes. Uma delas determinava o fatiamento da compra de trilhos, para impedir que o processo beneficiasse um s fornecedor. No fim de 2012, com todos os cuidados observados, a licitao recomeou do zero. O prego ocorreu em 14 de janeiro passado. Apenas uma empresa se interessou pelo negcio, a PNG Brasil Produtos Siderrgicos. A corrupo aparentemente esbarrara nos obstculos criados pelo poder pblico  mas s aparentemente.
     Uma pequena checagem de documentos permite descobrir alguns detalhes interessantes sobre a PNG. Ela se apresentou associada a uma fabricante chinesa de trilhos, coincidentemente a mesma que na licitao cancelada em 2011 faria parceria com a Dismaf. At novembro do ano passado, antes da licitao, a PNG pertencia  prpria Dismaf e tinha como scios os irmos Alexandre e Basile Pantazis, os mesmos donos da Dismaf, esse ltimo tambm tesoureiro do PTB de Braslia e amigo do influente senador Gim Argello, do PTB. Para disputar a licitao, a dupla fez uma maquiagem na empresa. Mudou o nome para PNG, transferiu o controle societrio para os filhos, dois jovens estudantes, e foi  luta. Foi a nica concorrente no prego  e venceu a primeira leva, no valor de 320 milhes de reais.
     A Valec no v nada de errado no processo. Sustenta que, por ter scios diferentes dos da Dismaf, nada impedia que a PNG participasse da licitao. Como nos casos anteriores envolvendo os donos da Dismaf, essa nova licitao tambm j est sob suspeita. O TCU apontou indcios de favorecimento  empresa e determinou a suspenso provisria do processo. Mas os Pantazis, persistentes que so, j avisaram que no vo desistir  e nem veem por qu. Afinal, segundo o prprio Basile contou a amigos, ele deixou o cargo de tesoureiro do PTB para evitar qualquer suspeita sobre seus negcios.


